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História do serviço de anestesiologia, HGSA

No período do pós-guerra, a tomada de consciência da importância da Anestesia para a evolução da prática cirúrgica, foi sentida por alguns cirurgiões do Hospital de Santo António, então pertencente à Santa Casa da Misericórdia, e transmitida aos órgãos gerentes. O Dr. Araújo Teixeira, Director do Serviço de Cirurgia do HSA, foi peça fundamental na transmissão da importância da Anestesia Moderna a um jovem médico, que tinha feito a sua preparação médica em Lisboa, o Dr. Pedro Ruella Torres. Assim, após a sua formação nos Hospitais de Lisboa, regressa ao Porto, em Novembro de 1947, e entra em conversações com as entidades administrativas do Hospital, não para ser contratado como assistente de algum cirurgião, mas para ser o Director de um Serviço de Anestesia que deveria ser composto por um Director e um Primeiro Assistente.

Em Janeiro de 1948, a Mesa da Santa Casa delibera contratar o Dr. Pedro Ruella Torres para Director do Serviço de Anestesia e o Dr. Alfredo António Ribeiro dos Santos para Primeiro Assistente. Ribeiro dos Santos formado em Medicina no Porto em 1943, trabalhava num Serviço de Medicina com o Dr. Veiga Pires, com quem comenta o seu interesse pela Anestesia Moderna. É Veiga Pires que sugere o seu nome ao saber da intenção de criar um Serviço de Anestesia no HGSA.

A 3 de Março de 1948, Ruella Torres assina contrato como Director do Serviço de Anestesia e compromete-se a provar “o aproveitamento do estágio que para sua especialização como anestesista, se propõe fazer a expensas próprias em Inglaterra”. Ao mesmo tempo, Ribeiro dos Santos faz a sua formação nos Hospitais Civis de Lisboa, onde estagia com Eusébio Lopes Soares, Carlos Silva e Lúcio Ferreira.

De regresso ao Porto os dois médicos tomam posse dos seus cargos a 15 de Julho de 1948, e o Serviço marca nessa data o seu início oficial!

Desde logo foi necessário lutar contra uma mentalidade e preconceito enraizado na comunidade médica, segundo a qual o cirurgião era hierarquicamente superior, e não era fácil mudar e passar a funcionar como equipa. A especialização em Anestesia marcava a igualdade, as boas relações permitiram que a actividade fosse crescendo e ganhando adeptos e a actividade cirúrgica beneficiou do facto do doente estar anestesiado e controlado durante o acto cirúrgico. Nesta altura o Bloco Operatório surgiu como entidade; até aí cada cirurgião operava numa dependência da sua enfermaria. Na ala mais a sul do hospital é construído um Bloco Operatório com 4 salas, ocupando 2 pisos. O número de anestesias realizadas teve uma progressão lenta, devida ao tipo de rotinas dos cirurgiões que desaproveitavam o bloco; apesar de muitos entraves desta ordem, o Serviço e a Especialidade progrediam.

Em 1950 a Ordem dos Médicos reconhece a especialidade de Anestesiologia, sendo estabelecidas regras de especialização. O Serviço de Anestesia do HGSA é o único considerado idóneo na valorização dos estágios.

Em 1951, é aberta vaga para mais um Assistente, sendo ocupada pela Dra. Leonor Ribeiro, que também tinha feito a sua formação em Lisboa e permaneceria no Serviço até 1962, altura em que passou a anestesiar na Casa de Saúde da Boavista. Por esta altura o Dr. Ruella Torres alargou a actividade do Serviço a outros Hospitais do Porto, como o Hospital Rodrigues Semide, Hospital Maria Pia e Hospital de Matosinhos.

Em 1952 é nomeado um médico extraordinário para o Serviço de Anestesia, o Dr. Raul Nascimento da Fonseca, tendo sido pioneiro na Anestesia Pediátrica em Portugal. No mesmo ano teve inicio o 1º Estágio oficial de formação em Anestesia, sendo Candidato o Dr. Adelino Lobão. Mais tarde faria exame à Ordem e ficaria no Serviço de Anestesia como médico extraordinário. Após a realização do primeiro concurso público, é aprovado e passa a ocupar um lugar no quadro do Serviço. O Dr. Lobão dedicou-se à actividade anestésica no Serviço de Urgência, tendo aí um papel fundamental. Foi Chefe de Equipa de Urgência. Trabalhou no HGSA até ao limite de idade em 1993.

Salienta-se que o trabalho no bloco operatório, de forma organizada, com traje próprio, com regras próprias e com equipa de enfermagem completa, se deveu ao trabalho conjunto com a Sra. Enfermeira Clara Palmares, que fez a sua formação em Inglaterra, de onde trouxe o modelo que foi seguido e implementado no HGSA. Em 1954 realiza-se o primeiro exame de Anestesia à Ordem dos Médicos. O candidato foi o Dr. Raul Nascimento da Fonseca.

O Dr. Ribeiro dos Santos assume a direcção interina do Serviço entre 1954 e 1955, período em que o Dr. Ruella Torres realiza a sua Comissão Militar na Índia.

Em 1955 é criada a Sociedade Portuguesa de Anestesia  SPA, que teve como primeiro Presidente o Dr. Eusébio Lopes Soares. Em 1962 o Dr. Ruella Torres assume essa Presidência.

As áreas de intervenção da Anestesia foram crescendo e a necessidade de contratar novos Anestesistas impôs-se. Em 1956 foram contratados mais dois Médicos eventuais, o Dr. José Luís Barroso e o Dr. Manuel Silva Araújo.

Em 1958 o Dr. Silva Araújo é aprovado no exame para o Titulo de Especialidade de Anestesiologia pela Ordem dos Médicos (Lisboa).

Em 1959, o Dr. Ruella Torres apresenta um “Plano de Remodelação” do Serviço de Anestesia, pretendendo a formação de equipas de dois elementos especialistas e um estagiário e ainda que em cada equipa de urgência fosse incluído um Anestesista, em presença física de 24 horas, com a remuneração de 150$00! Apresentou também a lista de material a adquirir e a necessidade de contratar mais seis anestesistas. Alguns destes foram Costa e Almeida, Ricardo Magno e Ruy Oliveira. A remodelação foi aprovada e foi-lhe dada execução! 

Em meados de 1961, com a abertura do Hospital S. João, o Dr. Ruella Torres envolve-se nesse processo e durante algum tempo assegura a direcção do Serviço de Anestesia do HGSA mas também cria um novo Serviço no Hospital S. João. Deixou definitivamente o HGSA em meados de 1967. Mais uma vez o Dr. Ribeiro dos Santos assegurou interinamente a direcção do Serviço. 

Desde que iniciou a sua actividade no Serviço, o Dr. Silva Araújo, interessou-se pela área da Reanimação, e colaborou com uma equipa multidisciplinar na criação do primeiro Serviço de Reanimação do HGSA, tendo sido nomeado Chefe da Secção Cirúrgica de Reanimação Respiratória em 1963.

Em 1962 realiza-se o primeiro concurso público para o Serviço de Anestesia, sendo esse lugar ocupado pelo Dr. Adelino Lobão, um ano mais tarde o Dr. Silva Araújo foi aprovado em concurso de provas públicas para segundo assistente do Serviço de Anestesiologia do HGSA. Em 1969 este último foi aprovado no concurso de provas públicas para Assistente de Anestesiologia no mesmo hospital, e em 1970 realiza-se o concurso público para a direcção do Serviço de Anestesiologia, concorrendo os Drs. Ribeiro dos Santos e Silva Araújo. Em 1971 o Dr. Silva Araújo toma posse como Director do Serviço de Anestesiologia do HGSA. Este acumula os cargos de Director do Serviço e do Internato Médico até Junho de 1972. Ainda em 1971 surgem as Carreiras Médicas (dec. Lei 413 e 414/71). No início deste mandato é redigido um documento com a proposta de organização do Serviço de Anestesiologia com três componentes: interna, urgência e ensino pós-graduado.

Inicialmente o Internato de Anestesiologia era organizado em três anos, e só mais tarde, em 1977, a nova legislação regulamentou a formação em quatro anos.

O Serviço de Anestesiologia desde muito cedo tinha participado em Encontros Internacionais de Anestesiologia, e na década de 70 passa também a organizar eventos, o primeiro dos quais em 1973: Curso Internacional de Anestesiologia, subordinado ao tema “Relaxantes Musculares”.

Com a necessidade, cada vez mais presente, de monitorização adquirem-se os primeiros monitores da marca General Electrics em 1977, depois de ter havido a colaboração de investigadores da Universidade de Aveiro que tinham feito a sua formação na Universidade de Berkeley.

Em 1979 o Serviço de Anestesiologia passou a colaborar no ensino pré-graduado ao leccionar a disciplina de Terapêutica, no curso de Medicina do ICBAS.

Em 1988 com o encerramento do Hospital Rodrigues Semide, a Ortopedia passou a operar no HGSA, uma vez que o bloco existente era insuficiente para as necessidades, o bloco operatório central sofreu obras para ampliação, tendo sido construídas mais 2 salas operatórias e uma sala de recobro. Em 1991 também a sala de Neurocirurgia foi remodelada com o patrocínio de uma entidade particular. Refira-se que, para além deste Bloco Central, existiam blocos periféricos: um no Serviço de Ginecologia, um no Serviço de Oftalmologia, um no Serviço de ORL, e o bloco da Urologia. A Anestesia colaborava ainda nos Locais Remotos.

Foi também por esta altura que a actividade do Serviço se alargou englobando âmbitos até então inexistentes. Foi constituída uma Unidade de Dor, com instalações próprias e elementos fixos, liderada pelo Dr. António Meireles. Foi criada uma Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente, que teve como responsável o Dr. Mário Lopes, em colaboração com médicos Internistas, tendo desde o início funcionado como uma parceria entre os dois Serviços. Assim o organigrama do Serviço ia aos poucos sendo ampliado. O quadro do Serviço foi sendo aumentado de acordo com as necessidades decorrentes desta pluralidade de actividades.

O princípio deste século marcou a grande mudança a nível hospitalar, com o início do processo de acreditação do HGSA e a mudança no tipo de gestão para Sociedade Anónima, que por sua vez implicou um novo regulamento interno, levando este à criação de Departamentos. Em 2003 foi criado o departamento de Anestesiologia Cuidados Intensivos e Emergência, tendo como seu Director o Dr. António Marques. Foi nestes últimos anos que o organigrama do Serviço foi definido nos moldes actuais.

Entre 2005 e Julho de 2012 a Dra. Isabel Aragão assume a direcção do Serviço de Anestesia. Este é um período que coincide com grandes mudanças físicas e organizacionais no hospital.

Uma mudança com importantes consequências é a criação, a 1 de Outubro de 2007, do Centro Hospitalar do Porto (CHP), ao abrigo do Decreto-Lei 326/2007 de 28 Setembro, que implicou a fusão do HGSA com o Hospital Pediátrico Maria Pia e a Maternidade Júlio Dinis, havendo em simultâneo a necessidade de reorganização ao nível das chefias departamentais. Para o Serviço de Anestesia isto significou o aumento do numero de anestesiologistas; simultaneamente, ao haver a fusão dos três serviços, as valências abrangidas também se alargaram e fisicamente houve a necessidade de trabalhar em edifícios e blocos operatórios distintos. Como todas as mudanças, esta poderá ter sido a mais crítica, por ter sido a primeira, e nos anos seguintes muitas outras aconteceram já com um impacto menor nos intervenientes.

Fruto de obras e grandes mudanças, os blocos operatórios foram-se modificando e as equipas adaptaram-se sucessivamente. Em Março de 2012 toda a cirurgia pediátrica passou para o HSA, enquanto aguardava a construção do Centro Materno Infantil do Norte (CMIN). A anestesia pediátrica passou a ser uma realidade e vários jovens anestesiologistas dedicaram a sua atividade à anestesia pediátrica, o que permitiu aumentar a produção cirúrgica, criar novos protocolos e ter uma escala de prevenção para cirurgia neonatal.

Paralelamente, foi criado o Centro Integrado de Cirurgia Ambulatória (CICA), com pessoas dedicadas à cirurgia ambulatória desde a sua criação, tendo o Dr. Paulo Lemos integrado a equipa que planeou este projecto. Em 20 de Maio de 2011 foi inaugurado o CICA e, mais uma vez, grandes mudanças surgiram no seio da anestesia e cirurgia do CHP. Trabalhar fora da “casa mãe” foi um desafio, tendo sido criados protocolos clínicos e protocolos de actuação face a complicações. A consulta externa de anestesia foi alargada, permitindo que a maioria dos doentes a serem operados em regime ambulatório tivessem avaliação prévia e actualizada.

Em Setembro de 2012 a direcção do Serviço de Anestesia foi assumida pelo Dr. Humberto Machado, que na última década tinha dirigido o Serviço de Urgência do HGSA. Paralelamente o departamento DACIE passou a ser dirigido pelo Dr. Fernando Rua, e o Dr. António Marques assumiu a direção do CMIN, ainda em fase de construção.

A formação pré-graduada e pós-graduada, que teve sempre um peso importante na actividade dos elementos do serviço, ganha nova vida com a criação do Centro Biomédico de Simulação, criado a 22 de Outubro de 2014 e liderado pela Dra. Eduarda Amadeu. A realização de múltiplos cursos práticos com simuladores, a par da formação teórica veio enriquecer esta área de formação médica. Não surpreendeu pois que, após uma visita de membros da ESA (European Society of Anaesthesiology) em Setembro de 2013, tenha sido concedido o Certificate of Accreditation of a European Centre for training of Anaesthesiologists for the period 15 november 2013 - 15 november 2018. O Serviço de Anestesiologia do CHP é até hoje o único serviço no país a preencher os critérios dos standards Europeus.

Ao fim de quase dois anos de construção o CMIN abriu as suas portas em Maio de 2014 e, de forma gradual, a actividade materno-infantil foi transferida para umas instalações novas, funcionais, e com capacidade para atingir os objectivos traçados para este projecto. O serviço de Anestesiologia teve um papel fundamental neste arranque e na consolidação do projecto, uma vez que lidera vários dos cargos dirigentes e organizativos. Quer o Dr. Paulo Lemos, que assumiu a direção da área anestésica do CMIN, quer o Dr. Pedro Pina, como responsável da Anestesia Pediátrica, foram fundamentais na rápida organização e integração no normal funcionamento do CHP.

O Serviço de Anestesiologia é um dos maiores serviços do CHP, tendo atualmente 78 especialistas, um especialista eventual e 31 internos.

Mantém-se um grande serviço com uma actividade altamente diversificada. 

E muito mais haveria para contar destes 67 anos de História!