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O que é a anestesiologia?

O que é a anestesiologia? A anestesiologia é uma especialidade médica. Um anestesiologista, ou anestesista como é mais frequente dizer-se, é um médico que depois de concluído o curso de medicina de seis anos e de mais um ano de internato geral, cumpre um programa de especialização em anestesiologia (internato) que tem a duração de cinco anos e obtêm aprovação num exame nacional organizado pela Ordem dos Médicos. Assim, um médico obtém a certificação para exercer anestesiologia após uma formação com a duração total de 12 anos. 

Todos os anestesistas ou anestesiologistas são médicos e a anestesiologia apenas pode ser exercida por médicos. Um anestesiologista não se ocupa de mais do que um doente em simultâneo. Na maioria dos actos que praticam, os anestesiologistas têm a importante colaboração de um enfermeiro com treino especial. 

O serviço de anestesiologia incorpora todos os anestesiologistas e os internos em formação e é um dos serviços clínicos do hospital com maior número de médicos. 

A anestesiologia é uma das especialidades médicas com que os utentes dos serviços do hospital têm mais contacto. Por sua vez a anestesiologia tem um contacto diário directo com a maioria das outras especialidades. Os utentes por regra conhecem pouco do que é a anestesiologia e não reconhecem a sua devida importância, mas a verdade é que esta especialidade é considerada como um dos maiores avanços da medicina nos últimos séculos. Enquanto especialidade médica a anestesiologia é uma das mais recentes. 

A medicina como hoje a conhecemos não seria possível se a anestesiologia não tivesse sido inventada. 

No Centro Hospitalar do Porto realizam-se anualmente dezenas de milhares de procedimentos médicos que não seriam possíveis sem a anestesiologia. 

O público relaciona a anestesiologia essencialmente com o acto de administrar uma anestesia geral, e embora reconheça a importância desse acto pelos riscos que envolve, desconhece no essencial no que consiste e qual o papel do médico que o pratica. 

A anestesia geral coloca nas mãos do anestesiologista o controlo de todas as funções vitais do paciente, pelo que é habitualmente comparada à aviação. O anestesiologista tem um papel semelhante ao de um piloto de um avião e assume a responsabilidade de conduzir o seu “passageiro” numa viagem que inclui um levantar voo suave (adormecer), um percurso tranquilo (inconsciência durante o procedimento) e uma aterragem segura (despertar). A diferença é que um anestesiologista conduz um passageiro de cada vez; a semelhança é que o objectivo é proporcionar ao passageiro um seguro regresso a casa. 

Apesar da responsabilidade envolvida e da elevada sofisticação no controlo das funções vitais, a anestesiologia é a especialidade médica com mais elevados níveis de segurança. Isto faz com que hoje o risco associado à anestesia seja inferior ao que está associado a viajar num voo de aviação comercial. 

A anestesiologia é a especialidade em que um médico mais intervém no controlo das referidas funções vitais: respiração, actividade do coração, circulação, funções do cérebro, etc. Esta característica faz com que os anestesiologistas assumam um papel relevante e elevada competência na medicina de emergência e na medicina intensiva nos doentes críticos. Os anestesistas estão presentes nas várias unidades de cuidados intensivos do hospital, local onde são tratados os doentes em situação de grave perigo de vida necessitando de meios artificiais de suporte de vida. São os doentes que se diz estarem “ligados às máquinas”, máquinas estas iguais às que são usadas no dia-a-dia pelos anestesistas nas salas de operações, o que os habilita para o seu uso nas unidades de cuidados intensivos. 

Também no serviço de urgência existe uma sala especialmente equipada para o atendimento emergente nas situações de máxima gravidade, e também aí a participação dos anestesistas é grande, já que são peritos em situações desse tipo. 

A medicina de urgência pré-hospitalar (VMER – viatura médica de emergência e reanimação) e o transporte de doentes graves são também áreas em que a participação dos médicos anestesistas é muito grande. Estas intervenções de emergência que implicam saber lidar eficazmente com uma situação de trauma grave ou paragem cardio-respiratória, eram também designadas através dos termos “reanimação” e “ressuscitação”. Os gestos e técnicas utilizados na “ressuscitação” foram inventados por um médico anestesista americano cerca de 1960 e são ainda hoje uma intervenção que qualquer anestesiologista desempenha com uma competência máxima. 

Os anestesistas são homens e mulheres de acção, treinados exaustivamente para lidarem de forma pronta e eficaz com as situações de grande emergência e gravidade. Estão preparados para saber liderar o grupo de profissionais que actuam nessas situações. 

É também por isso que alguns exames médicos que envolvem especial risco, como por exemplo os cateterismos do coração, são executados com presença de um médico anestesista para a eventualidade de ocorrer uma situação em que o paciente necessite de ser reanimado. Em muitos outros exames médicos o anestesiologista tem uma participação importante, essencialmente para proporcionar conforto e segurança. Isto acontece por exemplo para a realização de endoscopias, exames de radiologia e imagem em crianças ou pessoas incapazes de colaborar ou ainda em exames que provocariam dor caso não fossem realizados com anestesia ou sedação. 

Um aspecto muito importante da anestesiologia é que não se resume ao acto de anestesiar ou sedar um doente e de estar presente durante o procedimento assegurando o controlo das funções vitais e proporcionando um nível adequado de anestesia. O envolvimento do anestesiologista começa antes do procedimento e termina muito depois. Frequentemente quando a um doente é proposta uma cirurgia ou um procedimento doloroso, é marcada uma consulta de anestesia em que o doente é avaliado por um anestesiologista. Na véspera do procedimento o anestesiologista visita o doente para se dar a conhecer e explicar o procedimento. Há muitas técnicas anestésicas e muitos medicamentos diferentes, assim como inúmeros exames que podem ser realizados ou métodos de monitorização que podem ser empregues e que variam caso a caso conforme o tipo de procedimento, as características do doente e os problemas de saúde que possa ter. O anestesiologista lida com doentes que vão do recém-nascido à criança e aos muito idosos e com todo o tipo de doenças. Ao cirurgião interessa essencialmente a doença que motiva a operação; ao anestesiologista compete mais a avaliação do doente como um todo. A escolha da anestesia e a sua adequação a cada doente é uma tarefa essencial do anestesiologista. No final da cirurgia ou procedimento, o doente é acompanhado no que se chama o período de recobro, ou recuperação, permanecendo durante uma ou mais horas numa Unidade de Cuidados Pós-Anestésicos (UCPA) onde é acompanhado em presença física por um anestesiologista. Durante esta fase a intervenção do anestesiologista é essencialmente dirigida a evitar que ocorra dor. Com frequência o anestesiologista visita de novo o doente no dia após o procedimento, avaliando os resultados e obtendo a informação que permite ir sempre aperfeiçoando os cuidados prestados. A esta faceta da anestesiologia chama-se hoje “medicina peri-operatória”. Mais do que ser anestesista, o anestesiologista é o verdadeiro especialista da medicina peri-operatória que acompanha o doente ao longo de todo o processo relacionado com uma cirurgia, elaborando e executando um plano que envolve médicos e vários profissionais de saúde. 

Uma das principais intervenções da anestesiologia é o controlo da dor. Nos procedimentos cirúrgicos para alem de fazer com que o doente esteja inconsciente é essencial evitar que possa sentir dor ou os efeitos nocivos dos estímulos cirúrgicos. Após a cirurgia é essencial evitar que o doente sinta dor. Os anestesiologistas são muito experientes no tratamento da dor e na utilização de medicamentos analgésicos potentes. Por isso hoje em dia os anestesiologistas estão largamente envolvidos no tratamento da dor fora da sala de operações ou do recobro. Tal acontece em relação à dor crónica e à dor aguda. Muitos anestesiologistas especializam-se no tratamento de doentes com patologias dolorosas crónicas, o que ocorre no âmbito da chamada consulta de dor. O tratamento da dor pós-operatória é também da competência da anestesiologia e realiza-se no âmbito da Unidade de Dor Aguda que proporciona a observação e tratamento da dor nos primeiros dias do pós-operatório. 

O controlo da dor e a anestesia podem também ser obtidos através da administração de medicamentos anestésicos locais. Essa administração pode ser feita para abolir a sensibilidade de uma perna ou um braço ou de uma parte do corpo, fazendo com que o doente possa manter-se consciente e não sentir a parte do corpo sobre a qual vai ser efectuada a cirurgia. Tal é realizado através da utilização de agulhas para fazer chegar o anestésico ao contacto com nervos ou com a medula. Estas técnicas incluem as conhecidas epidural, a raquianestesia e os bloqueios de nervos. Os anestesiologistas são os peritos na chamada anestesia ou analgesia regional ou loco-regional que muitas vezes se prefere à anestesia geral. Pelo saber adquirido nestas técnicas, os anestesiologistas são também os médicos que têm a seu cargo a analgesia do parto que utiliza a analgesia epidural. Esta é também uma área de grande importância na anestesiologia sendo que todas as situações de trabalho de parto são acompanhadas por um anestesiologista. 

Assim, são competências da anestesiologia várias áreas do exercício da medicina. Trata-se de uma especialidade com uma vertente técnica muito importante e que implica conhecimentos vastos de áreas muito nobres das ciências médicas como sejam a anatomia, a fisiologia e a farmacologia. As bases científicas da anestesiologia estão hoje muito desenvolvidas e apoiam-se numa actividade de investigação cada vez mais importante. Utiliza modernas tecnologias e equipamentos sofisticados. Os locais de intervenção dos anestesiologistas estão sempre equipados de monitores e máquinas que permitem um bom controlo das funções vitais do paciente. Empregam-se diariamente check lists de material, dos doentes e de procedimentos muito detalhadas e procede-se continuamente a registos muito rigorosos. 

A anestesiologia combina bases científicas e elevada tecnologia, mas tem também uma importante dimensão humanitária. Apesar de o contacto com os doentes ser limitado a um período de tempo geralmente de apenas poucos dias, trata-se de um contacto muito marcante. O doente entende que se coloca nas mãos do anestesiologista, que fica numa situação em que geralmente perde a consciência e o controlo sobre o que lhe possa acontecer e o anestesiologista entende que nas suas mãos tem uma pessoa por cujo bem estar terá que velar, a quem os actos médicos por vezes agressivos a que se vai sujeitar não poderão causar dor, nem danos nem um prejuízo das suas legítimas expectativas de bem estar físico e psíquico. A dimensão humana e humanitária da anestesiologia é intensa e propicia a que entre o doente e o seu anestesiologista se possa estabelecer uma relação de confiança e de segurança. 

Porque alguém tem que velar quando alguém está muito debilitado ou dorme, a anestesiologia e o anestesiologista estão presentes e proporcionam conforto, alívio e segurança.